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Evaldo Balbino, de Resende Costa, concorre a prêmio


No próximo dia 4, serão revelados os ganhadores do Prêmio Saraiva de Literatura e Música, criado especialmente para celebrar o centenário da editora. Foram mais de 4 mil inscrições sujeitas a critérios como originalidade e criatividade, além de características técnicas específicas de cada área. Entre os finalistas, está o autor Evaldo Balbino, natural de Resende Costa, concorrendo na categoria romance com o livro inédito Os fios de Ícaro. Ele, que é professor na UFMG, nos concedeu uma entrevista exclusiva.

VAN - Qual a sensação de ter o seu trabalho reconhecido?
Evaldo – Fico contente que, pouco a pouco, o meu trabalho esteja sendo percebido. A sensação que tenho, é claro, é de felicidade, pois é bom fazermos algo com amor, com paixão, e isso dar resultados. E eu escrevo com paixão. Se assim não fizesse, não produziria literatura. A palavra, quando atravessada pelas nossas paixões, ganha mais força, mais vida do que ela já tem. Mas penso que o reconhecimento deve ser construído devagar, sem pressa, assim como se faz uma construção com alicerces sólidos. Não tenho pretensão de fama, e digo isso com sinceridade, pois um autor muito lido hoje não tem garantias de que será lido daqui a alguns anos. Somos mortais, e tudo na vida passa. É lógico que quero ser lido, mas não para ser famoso, e sim para chegar até os leitores, para me comunicar com eles. Escrever para mim é uma forma de construir pontes para chegar aos meus irmãos. Tudo é um desejo de expressão, de autoconhecimento e de conhecimento. Escrever é um exercício nesse sentido. O importante é que o livro chegue até o leitor e ambos, livro e leitor, possam ter uma interação. É você lendo o livro e pensando consigo mesmo:
– "Meus Deus, tudo isso tem a ver comigo também!".
A obra tem que ter esse cunho universal, não é? A obra é maior do que o autor. O autor não interessa tanto, mas o livro sim, porque o livro diz mais do que o autor quis dizer. Estou feliz, porque estou no caminho certo para mim: o caminho tortuoso e saboroso das palavras.

VAN – Tem algum outro projeto literário previsto para o futuro?
Evaldo – Como estou sempre escrevendo, tenho sete livros ainda inéditos: quatro  de poesias, dois de poesia infantil e um de crônicas, fora Os fios de Ícaro, pois com ele são oito livros inéditos. Além desses oito livros, estou terminando um segundo de contos e escrevendo um segundo romance. Quanto a poemas e crônicas, de modo esparso, vou sempre garatujando, fazendo e refazendo, num trabalho incessante de escrita e reescrita. Acho que a vida de todo mundo é isso: um fazer e um refazer ad infinitum, não é mesmo? Ninguém está livre disso. No caso do escritor, penso, morreremos com projetos literários ainda pendentes. A vida parece muito curta para tanto desejo de produzir, de escrever. Nossa mente não para.

VAN - Quais outros prêmios você já ganhou?
Evaldo – Até hoje tenho 19 distinções literárias. No mês de outubro, recebi o Prêmio Humberto de Campos (1º lugar) no Concurso Internacional de Literatura 2014, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ), com o livro de contos Amores Oblíquos.

Para atiçar a curiosidade de seus leitores e mostrar um pouco do livro que concorre ao Prêmio Saraiva, o autor disponibilizou a seguinte sinopse do livro Os fios de Ícaro.

A obra coloca em cena um narrador na terceira idade que, rememorando seu passado, reescreve-o em forma de memórias. As memórias do narrador, labirínticas, são atravessadas pela fantasia e pela realidade brasileira e mundial, abarcando boa parte de sua vida, mas se centrando no ano de 1978, às vésperas do processo de abertura política da ditadura brasileira. Ficção dentro da ficção, pois o narrador-escritor cria e se confunde com uma das personagens, esta obra é permeada pelo mundo da infância, das paixões, da homoafetividade, da loucura, dos adultérios e dos amores desencontrados. E tudo isso numa linguagem erótica à flor da pele, permeada, em alguns momentos, por tons místicos. Trata-se de uma narrativa de autoanálise, de busca de si mesmo, a qual o narrador faz ao entretecer os fios da escrita. Fios que querem alçar voo. Mas sempre com a consciência dos limites do escrever, da impossibilidade do dizer, das restrições impostas a toda e qualquer representação. Mesmo cônscia dessas impossibilidades, a voz narrativa arrisca-se no labirinto das palavras e investe nas memórias para denunciar, construir, inventar e reinventar os passados, próprios e alheios, individuais e sociais, num país imerso em regime ditatorial.

Texto: Ana Luiza Fonseca e Rafaela Domingueti
Foto: Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa

Café Literário comemora centenário de Vinícius de Morais


A equipe da Escola Estadual Afonso Pena Júnior, da cidade de São Tiago, realizou, recentemente, mais a 4ª edição do projeto Café Literário. Este ano, além das atividades do evento, comemorou-se os “100 anos de Vinícius de Morais” e foram feitas homenagens a personalidades são-tiaguenses com a publicação de um livro de biografias pesquisado pelos alunos do 8º ano do Ensino Fundamental da Instituição.

A abertura do evento se deu às 16h, com a exposição de livros no prédio da escola, seguida de inúmeras atividades, como contação de histórias por alunos da escola, sarau “A Arca de Noé”, Contos e Encantos, “Causos são-tiaguenses”, lançamento do livro “Memórias” pelos alunos dos 8º anos, premiações “Leitores para a vida e não somente para a Literatura”, sarau “A Arte do Encontro”, teatro “Menino do Dedo Verde” (participação dos alunos da Escola de Educação Especial – APAE) e teatro “Passando o Tempo”.

As professoras de Língua Portuguesa Helena Marques e Walquíria Ângela Barros, que estão no projeto “Café Literário” desde a sua primeira edição em 2009, disseram que, a princípio, o projeto visava a possibilidade de despertar o gosto pela leitura nos alunos do PAV – Projeto Acelerar para Vencer.  Nesse mesmo ano, a escola recebeu uma verba para a aquisição de livros de Literatura a fim de atender à demanda desses alunos. A equipe pedagógica da escola e professores de Português decidiram, então, proporcionar um momento para a apresentação do material adquirido e, assim, lançaram mão de diferentes estratégias para atingir o público-alvo. “Foi disponibilizado um dia de aula nos três turnos com a exposição dos novos livros, declamações de poemas, contação de histórias e troca de experiências literárias com escritores são-tiaguenses. O evento [contou com] uma farta mesa de café com biscoitos, articulando o prazer da degustação e o prazer da leitura, além de propiciar uma interação com a cultura local”, enfatizam as professoras. 

Walquíria disse ainda que a execução do projeto naquela época foi muito importante para o desenvolvimento da leitura e escrita dos alunos. “A partir do projeto, surgiu o ‘Momento de Leitura’, onde todos os alunos da escola, no último horário da sexta-feira, param suas atividades para lerem diversos gêneros que são previamente selecionados de forma alternada pelas professoras de ensino e uso da biblioteca. Anos depois, sua visibilidade ganhou destaque, alcançando toda a comunidade, através da ênfase ‘Leitura além da Escola’, que culminou no recolhimento de livros pela cidade através de outro projeto desenvolvido pela escola: a Gincana Cultural, com o objetivo de serem organizadas em espaços públicos (postos de saúde, secretarias municipais, consultórios e no Forno da Praça) pequenas bibliotecas, onde pessoas pudessem ler e, os que tiverem o desejo de continuar a leitura, pudessem levar para a casa e devolver no local onde pegou”, conclui Walquíria.

Para Ana Luiza Vieira Morais, aluna do 7º ano, participar do Café Literário tem grande importância para ela e para seus colegas, pois incentiva a leitura, a aprendizagem e o trabalho em equipe. “É também uma forma de participar de projetos da escola, incentivando a comunidade a ler”, afirma a aluna.
Segundo a vice-diretora da instituição Daniela de Fátima Barbosa do Vale, a escola ganha e muito na execução do projeto Café Literário. “No sentido de resgatar nossa cultura e desenvolver nos alunos o gosto pela leitura, através de práticas recreativas e prazerosas que vão além do ambiente da sala de aula”, declara Daniela.
    
De acordo com o funcionário público e ex-prefeito da cidade Denílson Reis, este é um encontro marcante onde se reúnem gerações e que traduz o que a cidade tem de bom. “O que estamos vendo aqui é um encontro de diversas gerações e também diversos grupos sociais,  [como] estudantes, professores, donas de casa, pessoas em geral. O legal do evento é que estão traduzindo aquilo que nós somos. E, aqui, nós vemos de fato o reflexo do que é essa terra. Muita cultura, muita união, muita alegria, muito trabalho. E ao final, essa bela mesa de café com biscoito”, afirma Denílson.


DESTAQUES ESPECIAIS

Dias antes do evento, alunos fizeram trabalhos referentes à comemoração e homenagem ao centenário do poeta Vinícius de Morais. Todo o material produzido, como poemas, desenhos, varais de leitura, foram expostos por todo o ambiente na escola.    

A maioria dos familiares dos 21 biografados compareceu ao evento para registrar, junto aos alunos, funcionários e comunidade, o lançamento do livro “Memórias”.

VAN/Marcus Santiago
Foto: Marcus Santiago

Jornalismo e Religião


JB Vital mineiro, nascido em 1947 na cidade de Barão de Cocais, é um jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), casado com quatro filhos. Quando jovem, JB foi seminarista e, mesmo tendo decidido sair do seminário e seguido a carreira jornalística, JB continuou sua pesquisa com temas ligados à igreja, tendo sido também assessor na campanha de políticos como Tancredo Neves e Hélio Garcia. Ele passou também por grandes veículos de comunicação. Seu interesse sobre a igreja fez com que escrevesse um livro, “Como se faz um Bispo”, que está em sua segunda edição.
JB Vital esteve em São João del-Rei para ministrar uma palestra, que foi a aula inaugural do segundo semestre de 2013 para os alunos do curso de Comunicação Social da UFSJ. Na ocasião, ele contou mais sobre suas experiências, falou de sua profissão e do conteúdo de seu livro. Logo após a palestra, que durou cerca de 30 minutos, JB Vital abriu para que os presentes fizessem as perguntas.

1. O senhor chegou a ser coroinha e depois seminarista. O que o levou a seguir essa vida, e por que você não se tornou padre?
O evangelho tem uma frase que diz o seguinte: “muitos são chamados, mas poucos são os escolhidos”. Eu não fui escolhido, então é isso aí, eu entrei no seminário em 1959, eu tinha 11 anos. Fui estudar em BH e eu percebo hoje como o seminário marcou a minha vida, minha formação, minha índole, temperamento. Hoje eu encontro com meus amigos seminaristas em Belo Horizonte - nós temos um grupo muito grande que faz encontros - e eu vejo o seguinte: nós todos somos mais ou menos parecidos. [No grupo] tem médicos, engenheiros, jornalistas, advogados, mas que têm uma marca, como um tipo de gente que está meio deslocada, que não sabe se esse é o mundo dela mesmo, sabe? Mas é bacana.

2. Desde a escolha do Bispo Mathias (o primeiro Bispo), os Bispos já foram escolhidos de formas variadas. Na sua opinião, qual seria a maneira correta de escolher um Bispo?
Realmente o primeiro Bispo, sucessor dos apóstolos, foi escolhido no sorteio, porque Judas Iscariotes havia se matado e era necessário preencher a vaga dele. Os bispos são considerados sucessores dos apóstolos e hoje eles são escolhidos pelo Papa, há um processo muito refinado, muito interessante, em que os candidatos passam por uma triagem muito grande, um esquema de investigar a vida de todo mundo e, mesmo assim, de vez em quando passa algum que não é lá muito bento não! No passado já foi diferente. Durante muito tempo, os Bispos foram escolhidos por seu fiéis, pela comunidade, depois a coisa foi evoluindo, até chegar nesse sistema atual, em que o vaticano nomeia, com a ajuda dos seus núncios apostólicos, o embaixador do Papa. Então, cada tempo tem o seu modo de escolher. Imagina hoje, em que tudo é feito à base da disputa política e para escolher uma diretora de uma escola tem disputa, imagina a escolha de um Bispo! Então eu acho que é a melhor forma que está sendo feita.

3. No seu livro, Como se faz um Bispo, como surgiu a ideia de abordar a figura do Bispo? O que te levou a pensar nessa questão?
Sempre me ficou uma dúvida, eu tinha uma pulga atrás da orelha. Por que alguns são escolhidos e outros não? E nem sempre os mais brilhantes é que são escolhidos Bispos. Então, eu tenho mil histórias de como é que são feitos os Bispos, tem muitas piadas, mas também tem muito caso de pessoas que são escolhidas, como dizem, pelo Espirito Santo. 

4. Hoje você ocupa a cadeira n° 4 da academia de letras em Mariana, desde o ano passado. Como isso reflete em seu trabalho?
Primeiro foi um susto, eu não esperava quando me convidaram, eu fiquei como todo jornalista quando entra para Academia de Letras, o Carlos Castelo Branco que merecia com todas as razões ser membro levou um susto, O Oto Lara Rezende, daqui de São João, também ficou assustado. E muitos outros jornalistas ficam assim, porque quem faz literatura faz jornalismo, nós sabemos que o jornalismo não é bem literatura no sentido estrito da palavra, pois nós cobrimos o fato, a notícia. No meu caso, eu tenho procurado escrever livro-reportagem, e é sobre isso que eu quero falar aqui hoje em São João, dentro de um tema que, no meu caso, é o tema da igreja.

5. Qual mensagem o senhor tem para passar para os alunos de jornalismo que estão entrando na carreira?
Primeiro eu vou cumprimentar todo mundo, porque eu fiquei sabendo que o curso de jornalismo daqui ficou em terceiro lugar no ENADE. Segundo, eu vou dizer o seguinte: jornalismo é sensacional, isso é vocação mesmo, tem que procurar seguir o seu instinto e fazer jornalismo. E é uma forma de tentar melhorar o mundo. Eu estou participando de uma associação chamada “Associação Internacional de Jornalistas de Religião”, uma associação que nós fundamos em Bellagio, na Itália, ano passado. Tem gente do mundo inteiro, do Paquistão, África, Mórmon, tem todo tipo de gente, e a nossa ideia é fazer do jornalismo uma forma de reduzir a intolerância religiosa. Quanta guerra já foi feita no mundo por causa de religião! Então, eu acho que o jornalismo pode acabar com a intolerância e promover a compreensão entre os povos. 

VAN/Fernanda Rezende
Foto: Fernanda Rezende

Artistas e tiradentinos comentam o Festival Artes Vertentes


A partir do dia 12 de setembro, quinta-feira, a cidade de Tiradentes (MG) receberá artistas nacionais e internacionais durante a 2ª edição do Festival Artes Vertentes. Para a realização do evento, foi feita uma campanha no Catarse, plataforma de financiamento coletivo, para arrecadar os fundos via crowdfunding. Contudo, somente parte da programação é gratuita.

O segundo ano do evento, assim como o primeiro, conta com a presença de artistas da área de música, literatura, cinema, dança e artes visuais. Durante os dez dias do festival, passarão pela cidade artistas renomados, como o poeta Ferreira Gullar – artista homenageado desta edição –, a soprano Eliane Coelho, a cineasta armeniana Maria Saakyan – cujo filme “O Farol” será exibido –, o fotografo lituano Antanas Sutkus – pela segunda vez no festival –, o autor e ilustrador Nelson Cruz e vários outros.

Tanto o poeta e tradutor argentino Ezequiel Zaidenwerg quanto a pianista cazaque Oxana Shevchenko - ambos pela primeira vez na cidade - afirmam ter grandes expectativas em participar do festival. “Estou com grandes expectativas em relação ao Festival. Há um grupo excelente de artistas [no evento] e é uma honra participar disso”, declara Ezequiel. Enquanto Oxana afirma: “gosto muito da ideia desse Festival multiartístico, em que vários artistas convivem e colaboram entre si. Acho realmente fascinante e interessante essa ideia. Durante o Festival, espero encontrar artistas inspiradores e participar ao máximo da programação, além de apreciar esse  Brasil maravilhoso”.

Entretanto, um tiradentino, que não quis se identificar, participou da 1ª edição do festival e, embora pretenda ir a alguns eventos deste ano, opina: “A proposta é interessante, mas achei a primeira edição desorganizada e mal estruturada, sem mencionar a falta de equipe (voluntários ou não) para a produção. Corrigindo esse problemas, tem tudo para ser um ótimo festival”.

Segundo Wiliam Wiermann, morador da cidade, um fator que dificulta a presença da população de Tiradentes no evento é o custo alto de algumas das apresentações. “Não participei da edição anterior, mas acredito que o festival pode se tornar um dos melhores da cidade. Devemos pensar o que é arte e para quem essa arte/festival é oferecida. Penso que as atividades, ações, são muito elitizadas, não abrindo suas portas a toda a população tiradentina.” completa Wiliam.


A relação dos artistas presentes no festival e a programação encontram-se no site: http://www.artesvertentes.com/

VAN/Silvia Reis
Foto: Silvia Reis

Lançamento de “Holocausto Brasileiro” resgata o triste passado de Barbacena


Na próxima quarta-feira, 14, Barbacena completará 222 anos. Dentre os eventos para a comemoração da data, será destacado o lançamento do livro “Holocausto Brasileiro”, que relata o triste passado da cidade, sede do maior hospital psiquiátrico brasileiro no século XX, o que tornou Barbacena conhecida como “Cidade dos Loucos”. 

O Hospital Colônia foi fundado em 1903, após a fria cidade da Zona da Mata ter sido rejeitada como capital do Estado. Inicialmente, pretendia-se que fosse uma instituição que acolhesse portadores de doenças mentais, entretanto esse cenário logo se transformou. Eram internadas pessoas de diversas localidades, sendo que muitas delas chegavam à cidade em trens de carga. 

Muitos moradores antigos da cidade que vivenciaram esse momento histórico, descrevem como desolados e perdidos os rostos dos internos que chegavam à Estação Ferroviária. Hoje há a estimativa de que 70% dos pacientes não sofriam de doenças psiquiátricas, mas eram internados por serem prostitutas, homossexuais, epiléticos, alcoólatras ou, simplesmente, por serem tímidos. Muitos internos eram mulheres que sofreram estupro ou engravidaram antes do casamento, assim como pessoas de outros grupos sociais rejeitados pela sociedade da época.

Escrito pela jornalista Daniela Arbex, “Holocausto Brasileiro” descreve as atrocidades financiadas pelo Estado, bem como silenciadas pela população, por médicos e funcionários. Muitas vezes abandonados pela própria família, pacientes eram enjaulados, andavam nus pelos pátios e eram “tratados” com o chamado eletrochoque. Em um único dia, chegavam a morrer até 16 internos.

A população barbacenense tem se mostrado interessada em participar do lançamento do livro. Esse é o caso de Fátima Motta, técnica de enfermagem na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), e moradora de Barbacena. Ela diz que, apesar de conhecer parte da história sobre o Hospital Colônia, não tinha noção da gravidade e dos números apresentados no livro. 

Maria do Rosário da Costa, também barbacenense, conta que se interessou pela história do passado da cidade, e deseja ler o livro. Ela ainda complementa que não concorda com o fato de Barbacena ser conhecida como “Cidade dos Loucos”, pois, segundo ela, é uma espécie de brincadeira com um fato sério e perturbador.

Paulo Baeta, policial militar, afirma que cresceu ouvindo boatos negativos sobre o “hospício” - como eram chamados os hospitais psiquiátricos na época. Para o policial, a obra da jornalista Daniela Arbex é de extrema importância cultural e desvenda a autenticidade dos tais boatos. Nascido em Barbacena, ele não se orgulha desse passado obscuro da atualmente conhecida como “Cidade das Flores”.

O livro resgata a história do Hospital Colônia, em Barbacena, apresentando a estimativa de 60 mil pacientes mortos no período de 1903 a 1980, quando iniciou-se a reforma psiquiátrica no Brasil. O lançamento acontecerá na próxima terça-feira, 13, às 20 horas, no Museu da Loucura, na FHEMIG.

VAN/ Kellen Lanna; Vinícius Costa; Mariane Motta
Foto: Reprodução VAN

Evaldo Balbino e Alair Coêlho lançam livros em Resende Costa




Evaldo autografando livro

A Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa (Amirco) aproveitou a comemoração dos 101 anos do município e a primeira Mostra de Artesanato e Cultura para lançar livros de dois resende-costenses. Nos dias 31 de maio e 1º de junho, respectivamente, Evaldo Balbino e Alair Coêlho apresentaram suas obras no Teatro Municipal de Resende Costa.

O quarto livro de Evaldo Balbino, “Amores oblíquos”, foi vencedor do Prêmio Nacional Braskem/Academia de Letras da Bahia – Conto 2012. O autor e professor da UFMG lançou-o pela primeira vez após a premiação em Resende Costa, sua terra natal, com o apoio da Amirco. 

Conforme a diretora de comunicação da Amirco, Elaine Martins, a obra concorreu com outros 76 originais, de treze estados brasileiros. Evaldo comentou sobre a premiação: “Não é porque outros não ganharam o prêmio que não são tão bons. Julgar arte é muito difícil. O povo baiano me recebeu muito bem, assim como a Academia de Letras da Bahia. O presidente da Academia comentou, inclusive, que sou o primeiro mineiro a ganhar esse prêmio, que existe desde 1983”.

O autor já lançou outras publicações, como poemas e crônicas, mas essa é a primeira composta por contos. A obra possui 12 contos e, no entanto, Evaldo Balbino afirma que “não há nenhum conto com o nome de ‘Amores oblíquos’, mas todos falam de amor e todos os amores retratados são oblíquos”. O livro foi lançado pela renomada editora 7Letras, no Rio de Janeiro.


Alair no centro

Entretanto, a participação da Amirco foi além na primeira Mostra de Artesanato. No dia 1º de junho, o historiador Rosalvo Pinto ministrou uma palestra a respeito dos inconfidentes José de Resende Costa, pai e filho, também no Teatro Municipal. Em seguida, o resende-costense Alair Coêlho lançou o romance “O embuçado”, que trata da Inconfidência Mineira. 

O autor empreendeu pesquisas a respeito do movimento e percorreu a Estrada Real em busca de informações. Depois de escrever bastante e reunir alguns documentos,  decidiu que escreveria um romance. Esta foi a quinta publicação da Coleção Lageana. 

Alair Coêlho participou do Grupo Teatral Agenor Gomes, na era de ouro do Teatro Municipal de Resende Costa, e trouxe um pouco disso para a obra. “O embuçado” combina maçonaria, história, amor e mistério. “O livro tem muito de teatralidade. Não fugi de minhas origens. Quem ler, perceberá que toda a história tem como centro a laje”, concluiu Alair. 


VAN/Emanuelle Ribeiro
Foto: Emanuelle Ribeiro e Fernando Chaves

Nagib: Uma herança viva



Nascido no dia 1º de Agosto de 1929, em Novo Cruzeiro, pequena cidade do Nordeste de Minas Gerais, Nagib Barbosa Lauar guarda memórias de uma vida de entrega e paixão pela literatura. As adversidades que a vida lhe impôs nunca foram empecilhos para aquisição de conhecimento e, aos 83 anos, sua lucidez é refletida em escritos que reúnem experiência no interesse pela expressão através das palavras.

Em 1937, aos sete anos de idade, o falecimento de sua mãe deixou Nagib e mais seis irmãos órfãos. Filho de libaneses, mudou-se, juntamente com seu pai, para a cidade de Carlos Chagas. Mas foi em Ladainha - MG que completou seu curso primário. O “ginásio”, no entanto, foi cursado na cidade de São João del-Rei, no colégio Santo Antônio, onde, hoje, se estabelece uma das unidades da Universidade Federal da cidade, o campus Santo Antônio.

Foi nessa época que despontou o seu interesse por poesia e literatura. A cidade, detentora de vasta herança patrimonial, era modelo de propagação do movimento barroco. “Eu admirava poetas como Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Raimundo Correia e muitos outros”, declara. 
 
Até o curso ginasial, sempre foi sustentado pelo pai, um negociante de posses. Mas foi nessa época que se deu o seu fracasso financeiro, obrigando Nagib a começar a trabalhar para seu sustento e de seus estudos. 
     
Trabalhou em várias empresas, mas em nenhum de seus empregos conseguiu exercer sua paixão pela poesia e literatura. Em 1958, casou-se com Maria dos Anjos, mais conhecida como Lilita por amigos e familiares, que com quem teve quatro filhos. 

Atualmente morando em Belo Horizonte, Nagib conta que já leu toda a coleção de Machado de Assis. Além do autor carioca, Jorge Amado compõe a lista de coleções quase completas. O leitor também cita autores como Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar e Dan Brown. Grande admirador do ex-presidente Getúlio Vargas, exalta sua biografia, última obra lida, de Lira Neto. 

Viúvo e avô de seis netos, Nagib aproveita a ociosidade para explorar os livros que lê, sequioso, e compartilha alguns de seus versos, produzidos após a morte de sua esposa, em abril de 2012:

Saudade

Só.
Para além da janela,
nem uma nuvem, nem uma folha amarela
manchando o dia de ouro pó...
Mas aqui dentro, querendo bruma,
quanta folha caindo, uma por uma
dentro da vida de quem vive só.

Só. Palavra fingida, palavra inútil.
Pois quem sente saudade,
nunca está sozinho.
E a gente tem saudade de tudo nesta vida.
De tudo! Da Lita; 
De uma espera por uma tarde azul de primavera;
De um silêncio; 
Da música de um pé
cantando pela escada; 
De um véu erguido;
De uma boca abandonada;
De um divã;
De um adeus;
De uma lágrima até.
No entanto, neste momento
tudo isso passa na asa de um vento
Como um simples rolo de fumaça
E é só depois de velho, 
numa tarde esquecida
que a gente se surpreende a resmungar:
“Foi tudo o que eu fiz de toda a minha vida”
E começo a chorar...

Nagib Barbosa Lauar


VAN/ Bruno Marques, Isabela Fonseca, Maria Clara Lauar 
Foto: Arquivo pessoal

AS VÁRIAS FACES DE LOBO BRUXO




Antônio Eduardo de Carvalho Ávila nasceu em 16 de dezembro de 1948, são-joanense, pintor, poeta, ambientalista, conhecido como “Lobo Bruxo”. “Lobo” por ter um instinto mulherengo e “Bruxo” por ser uma pessoa mística, ligada aos mistérios da natureza.

Autodidata, seus desenhos e pinturas são frutos de sua fascinação pela arte, dedicação intensa a seus dons naturais e também de suas caminhadas na Serra, à qual o artista atribui toda a inspiração de suas obras. Ele é também autor dos livros: Lobo Bruxo, A Terapia do Equívoco, Almagarra, Relva Molhada e, mais recentemente, A Reflexão da Loucura.

Ambientalista, luta há muito tempo a favor do plantio de árvores, antes mesmo de se falar em sustentabilidade; tenta conscientizar pessoas no sentido de terem uma postura de trabalhar em prol do meio ambiente, das áreas de proteção ambiental e das nossas nascentes. Porém, ele acredita ser uma luta árdua, devido ao descaso das autoridades.

Além disso, Antônio Ávila é pintor. Suas pinturas e desenhos possuem a singularidade de um grande artista. Suas telas refletem ideais de vida, pessoas marcantes em sua história - principalmente mulheres - e também releituras de grandes mestres da arte.



Artista completo, ele é também escritor. Foi influenciado desde cedo, quando seu pai lhe deu o primeiro livro: uma coletânea de textos filosóficos que o ajudou a refletir sobre as questões da vida e a despertar o interesse pela leitura de outros textos, como poesias.

Todos os seus livros possuem um elo de ligação entre si. Seu último livro, A Reflexão da Loucura, segundo Lobo Bruxo, tenta elucidar algumas questões envolvendo o mundo atualmente, como o stress da vida moderna, a questão da bipolaridade que leva ao vazio, a carência, no caso a “loucura”.

Ele ainda tem outros projetos a serem realizados e outro livro a ser lançado. “Não vou parar nunca de escrever e pintar, enquanto houver questionamentos a fazer”, afirma.

Lobo Bruxo é um artista com uma trajetória de vida baseada na arte voltada não só para si mesma, mas para algo maior: para se criar uma sociedade crítica e sustentável.


VAN/Marília Cunha
Foto: Arquivo Pessoal



Zuenir Ventura no 8º Felit


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