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CICLOVIA PARA O CTAN COLOCA ESTUDANTES EM RISCO

Entre os problemas estão o estado de sujeira e o acúmulo de barro após período chuvoso. Confira!

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#EVU - Sobre Hamlet, Foo Fighters, jornalismo e focas

por Mariane Fonseca*

Hamlet

“Quem exatamente entrevistar? O que perguntar à fonte? Posso colocá-la contra a parede? E se eu esquecer de questionar algo? Como começar o meu texto? Qual vocabulário usar? E se a editora não gostar do que escrevi? E se um erro grotesco passar batido na minha revisão?

Mas opa... peraí. E se eu me formar, não conseguir emprego e sequer ter a chance de me fazer todas as perguntas do primeiro parágrafo?”.

Se Hamlet fosse um jornalista, não reduziria suas questões existenciais ao “ser ou não ser”. Até porque, convenhamos, seriam ossos do ofício esmiuçar, sem extrapolar limites, todos os detalhes do grande furo que é “existir”.

E ok, possivelmente, ao invés de um crânio, a personagem de Hamlet teria em uma das mãos um gravador. Por que escrevo isso? Porque ao encontrar pela primeira vez com os alunos da oficina de Práticas Jornalísticas, no CTan, me deparei com várias versões pós-modernas, juvenis e assustadoramente reais de Hamlets que traduziam nos olhos uma série de dúvidas latentes e perturbadoras que caberia a mim responder. Aliás, que caberia a mim TENTAR responder.

Foo Fighters (porque sim!)

E não houve dúvidas sobre essa não-obrigatoriedade no exato momento em que eles também bateram o olho em mim. O que esperar de uma manceba calçando All Star e vestindo camiseta do Foo Fighters, com tantas espinhas quanto eles brotando do rosto?

Não muito. Estava aí a magia da coisa. Jornalismo não é atividade prescrita em uma Tábua das Leis entregue a algum profeta da comunicação. Por outro lado, passa longe de ser tarefa simples aprendida com tutoriais do Youtube.

Jornalismo

Jornalismo é teoria, visão social, ética, paciência, insistência, vontade, talento, cabeça aberta, frustração, menos liberdade do que se pensa e mais – muito mais – responsabilidade do que se aparenta. É uma caixa de Pandora que, acredite, jamais deveria ter sido fechada. Porque apurar a realidade, confrontar visões, recortar informações e empacotá-las em papel jornal, áudio radiofônico, vídeo ou bytes é brigar todo santo dia com monstros mitológicos e não ganhar aplausos de Zeus por isso.

Porque Jornalismo também é escolha. E coragem. Não uma coragem heroica. Mas aquela que te move dia após dia, pauta após pauta, fonte após fonte, lead após lead depois de uma maratona acadêmica que inclui uma oficina extra ministrada por alguém exatamente como você.

Sim, sou tão pseudo-Hamlet quanto cada um dos frequentadores dos quase 10 encontros que extrapolaram os temas previstos no cronograma. E só por aí já foram uma grande metáfora a essa área da comunicação: Jornalismo é imprevisível – e não se esgota.

Focas

Em ano de Copa do Mundo, eleições, reviravoltas políticas, acidentes aéreos e Ebola não faltaram novas discussões, novas questões a serem debatidas – sim, debatidas. Não solucionadas.

A prática? A prática ficou por conta de tentar levar ao público aquilo que grandes capas de grandes veículos procurados por grande número de indivíduos não haviam estampado. A prática se deu entrevistando, desvendando, transcrevendo e criando sobre pautas protagonizadas por você e eu, que já deixei a universidade há algum tempo. Mas sigo aprendendo, perdendo o sono, enlouquecendo e tendo medo.

Só não digo que continuo me sentido uma “foca” chegando ao mercado. Ninguém é. Todos nós que decidimos ser predadores de palavras e manter viva essa cadeia alimentar de informações somos feras e – das grandes! – mesmo que às vezes forçadamente domesticadas.


* Mariane Fonseca é Comunicadora Social graduada pela PUC Minas em Arcos e mestre em Letras - Discurso e Representação Social pela UFSJ. Repórter da Gazeta de São João del Rei, redatora na agência Mapa de Minas e freelancer da Rock Content. Porque sim e porque jornalista abraça o mundo mesmo até parar num consultório homeopata sofrendo com estafa.

** #EVU - O Especial Vida Universitária é resultado de uma oficina de texto dada pela jornalista Mariane Fonseca para integrantes da Vertentes Agência de notícias e sairá às segundas-feiras até 23/02/2015.

Brasil comemora dia da Instituição do Direito ao Voto da Mulher


Há 83 anos, no dia 3 de novembro de 1930, o então presidente Washington Luís instituía o direito feminino ao voto e, desde então, a data é comemorada como o Dia da Instituição do Direito ao Voto da Mulher.

Apesar de o voto feminino ter sido devidamente regulamentado somente durante o governo de Getúlio Vargas, os ideais sufragistas chegaram ao Brasil em 1919, trazidos da França e difundidos pela bióloga Bertha Lutz que, em parceria com a militante anarquista Maria Lacerda de Moura, fundou a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher, que se tornou Federação pelo Progresso Feminino.

A professora Aline Martins, que ministra a disciplina Problemas de gênero: psicologia e teoria feminista, no curso de Psicologia da UFSJ, comenta sobre a importância da data.

Vertentes Agência de Notícias: O Movimento Sufragista no Brasil foi conquistado antes da maioria dos países latino-americanos – em parte, pela relação próxima que as sufragistas tinham com a elite política. Para você, qual foi o significado desse processo?

Aline Martins: O movimento sufragista ocorreu no Brasil de forma diferente dos países da Europa e dos Estados Unidos, sendo influenciado pela condição social e histórica de cada nação. A primeira onda do movimento feminista acontece no final do século XIX, quando as mulheres se únem, sobretudo na Inglaterra, para lutar pelos seus direitos, em especial o voto.  No Brasil, a primeira onda também é marcada pelo direito ao voto. A partir deste direito conseguido, foram atribuídas à mulher lugares permitidos e lugares proibidos. O lugar da política era o lugar mais proibido e, por consequência, o mais difícil de romper. A política reproduzia a própria hierarquia da sociedade brasileira que, por meio da sua história, legitimou a desigualdade. A militância feminista, assim como a militância de outros movimentos sociais, como negros e gays, mostra a inserção destes sujeitos no campo político, revelando um novo lugar a ser ocupado no espaço público da sociedade. O movimento feminista é um movimento comprometido com a reflexão crítica, com a construção de uma teoria que permita a leitura da sociedade a partir de novos olhares.

VAN: O sufrágio feminino no Brasil é um dos pilares da luta das mulheres pela luta por igualdade dos direitos e de tratamento. É possível afirmar que atualmente as mulheres possuem condições igualitárias as masculinas?

A.M: Sobretudo entre a década de 70 e 90, as feministas se interessavam em determinar a quem atribuir o peso explicativo da opressão contra as mulheres, embora existisse uma importância quase que unânime sobre os fundamentos das causas sociais. Com o advento da teoria feminista pós-moderna ou pós-estruturalista, a preocupação se baseia na busca da causa original e fundadora da opressão, levando em consideração outros aspectos que estão por detrás do fenômeno. A teoria feminista moderna propõe uma desconstrução da categoria de “mulheres”, defendendo que a noção de mulheres e homens se desenvolve a partir de construções históricas variadas que perdem coerência e estabilidade com o passar do tempo. É possível afirmar que a mulher, enquanto sujeito do feminismo, possui mais condições de questionar os mecanismos de reprodução e manutenção de poder presentes no mundo em que vivem e se posicionarem diante dessa realidade. 

VAN: Você vê alguma relação entre o direito de voto da mulher e o de ser votada com a participação da mulher no mercado de trabalho, em especial em postos de comando?

A.M: A maior participação da mulher no mercado do trabalho é um reflexo da saída da mulher do campo privado para o público. O movimento feminista possibilitou o direito ao voto, como outras conquistas. A mulher passa a circular em outros espaços, a assumir novas responsabilidades e papéis antes restritos. Podemos afirmar que as mulheres, em sua gama de variáveis, o que inclui questões econômicas, raciais, dentre outros, ainda não ocuparam todos os lugares possíveis.

VAN: Em que patamar a mulher brasileira estaria politicamente hoje comparando-se com outros países da América Latina e do mundo?

A.M: A mulher brasileira, assim como outras mulheres do mundo, a depender de todas as variáveis que compreendem o termo “mulheres”, possuem novas formas de circulação no universo público, a depender do contexto histórico, dos mecanismos de poder e legitimação que determinam quais espaços e papéis assumir. Hoje, as mulheres produzem uma política de presença, ou seja, a articulação feminista está para além da construção de ideias, ela se corporifica. Da mesma forma ocorre na América Latina e em outros países a depender da configuração de cada sociedade e da maneira que as lutas feministas de cada país ganham forma.

VAN/Ana Claudia Lima
Foto: Arquivo Pessoal

“Tudo que é sólido desmancha no Bar”


Pelos trilhos de São João del - Rei, pegamos o trem da boemia e paramos no bar mais frequentado da cidade, para nos encontrar com nosso entrevistado.

Se colocar no mundo através da palavra é o que tem buscado Igor Alves, pesquisador sobre espaços de enunciação da poesia contemporânea. Em uma mesa de bar, entre goles de cerveja e os burburinhos de conversas alcoolizadas, o poeta conta sobre sua trajetória por linguagens, palavras e poesia. Suas influências e a relação com o que chama de “prática da noite”, temática do seu novo título “Tudo que é sólido desmancha no bar” também foram assunto de nossa conversa.

Nascido em Lavras, ele conta que, desde pequeno, manifestava interesse por poesia, leitura e escrita. Filho de professora de escola pública, Igor deparava-se em casa e na escola com nomes como Vinícius de Moraes, Álvares de Azevedo e Paulo Leminski. No primeiro ano do ensino médio, já tomava coragem de recitar poemas para colegas de escola e declamava, às vezes acompanhado por amigos que até hoje estão junto com ele, como o músico Lucas Batista. Ele fez graduação em Letras, tendo entrado na Universidade Federal de São João del-Rei com 17 anos.

A esta altura da conversa, Igor já estava revirando uns goles de whisky. Sem deixar o copo de cerveja de lado, relembrava uns versos de Chacal: “Imagine se um dia a música parasse de tocar e o começasse a ser consumida apenas através da partitura. O mundo iria ficar mais triste.” Poeta e parceiro de Igor, Chacal, desde a época da poesia marginal, busca resgatar a poesia (principalmente a falada) em nossas vidas. O acinzentamento da sociedade, que confundiu a escrita fria com a poesia, é o que incita Igor Alves a algumas de suas práticas. Inspirado na trajetória de Chacal, ele tenta trazer a poesia de volta à vida, semeando livros nos bares por onde passa e recitando versos aos quatro ventos.

Respirar, tomar uma cerveja e escrever um poema

“Escrever é a mesma coisa que respirar, trabalhar, estudar, transar, tomar uma cerveja. É coisa séria. E inevitável”, afirma Igor ao refletir sobre os afazeres poéticos. Suas produções já renderam dois livros, sendo o primeiro “5.000 sentidos: Ontologia Poética”, lançado com um recital na Orquestra Popular Livre, em 2011. Já o segundo livro, “Tudo que é sólido desmancha no Bar”, foi lançado no Inverno Cultural desse ano, evento em que o poeta também participou ministrando uma palestra e um minicurso. Ambos os livretos foram feitos de forma independente e podem ser encontrados para venda nesse mesmo bar em que nos encontramos. Todas as edições feitas para o lançamento em julho já se esgotaram. Sobre as editoras, Igor afirma não se preocupar com elas por ora, já que “hoje em dia é muito fácil, você edita, imprime e vende”.

É tudo feito de maneira muito simples, e esta é a intenção, sem aquela roupagem chique, como ele mesmo relata. Tirar a gala do poema é o propósito. A poesia é paixão declarada à língua, e nada como democratizar esta serenata linguística. Parafraseando Leminski, ele cita: “a poesia é a paixão da linguagem e a linguagem da paixão”. Os bares influenciaram o título, pois, conforme acredita Igor, neles a obra encontra seu fim: ser consumida, vulgo democratizada.

Igor Alves admite: poesia não é “uma coisa que escolhi fazer. É uma coisa que veio, como um vício”. Algumas de suas poesias podem ser conferidas em:



Vida Curricular

Ter estudo
ter extrato
ter status
arrecadar fundos
ajudar a destruir o mundo

Assim como o próximo
amar a si mesmo
esperar a morte passar
pra vida chegar

Ah sim
seja seja seja
o man
amem e comprem
amém!

Se produzir reproduzir
em nome do padrão
em nome do patrão
nunca dizer não

O mercado te espera
mantenha as cartas
marcadas
na manga

Você tem o direito
de ficar calado
qualquer problema
chame o advogado

Cruz Crédito

Outros:





vodka

montanha

roleta

( . . . )

a vida é russa

.

Hai Tec

LP CD DVD HD
cada vez mais memória
e menos pra dizer

.

A cracolândia é o mundo

quem aos vícios se nega
que acenda

a primeira pedra

VAN/Marlon de Paula e Mariana Chaves
Foto: Marlon de Paula

Coletivo discute questões feministas na atualidade


Conhecido como “águia-brasileira”, o Carcará foi imortalizado na canção de João do Vale e José Cândido através da interpretação de Maria Bethânia, em 1965, no Teatro Opinião.  A ave nordestina, que simboliza a resistência no sertão, foi também a escolha de batismo de um Coletivo de Mulheres nascido em São João del-Rei, no ano de 2011.

A concepção do grupo aconteceu no 8º Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV), organizado pelo Diretório Central de Estudantes (DCE). Esse Estágio tem como proposta criar um diálogo do Movimento Estudantil brasileiro com os Movimentos Sociais - como o MST (Movimento dos Sem Terra), MAB (Movimento de Atingidos por Barragens) e MMM (Marcha Mundial das Mulheres) -, por exemplo.

Através do contato inicial com a MMM, as meninas que participaram do EIV começaram a se reunir para estudar, a fim de entenderem melhor o que seria o feminismo e, assim, criar a identidade do grupo. No início, o Coletivo auto organizado contava com cinco mulheres estudantes da UFSJ e, após de mais de dois anos de caminhada e rotatividade de membros, o Carcará conta atualmente com oito alunas fixas de cursos diversos, como Pscicologia, Economia, Jornalismo e Filosofia.  Elas se organizam sem hierarquias ou papéis pré-estabelecidos em encontros semanais no Campus Dom Bosco. As tarefas são distribuídas de acordo com cada demanda surgida. Elas se consideram mulheres que resistem e lutam por seu espaço na sociedade, assim como a águia que as nomeia.

Feminismo

Para o senso comum, o feminismo é o contrário de machismo, porém estudos  evidenciam que a definição de feminismo é mais abrangente e se encontra em constante modificação. Segundo a mestranda em Teoria Literária e Crítica da Cultura Laís Maria Oliveira, ser feminista não é deixar de ser feminina, e sim poder exercer seus direitos de ser humano sem que o órgão sexual seja considerado um diferencial político, visto como simples ferramenta para a imposição de hierarquias. “Sabemos que ao longo da história, as mulheres foram rebaixadas socialmente, consideradas enquanto objeto de manipulação masculina”, afirma. Ela ainda lembra que, com a emancipação feminina, alcançada gradualmente através de união e luta, pode-se dizer que as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço, seja no mercado de trabalho, na política, na academia. Porém, ela afirma que o pensamento “homem x mulher”, como ferramenta de manipulação, permanece: a violência contra a mulher e a proibição do aborto e de práticas anticoncepcionais são exemplos de como a sociedade ainda vê o feminino enquanto corpo servil para procriação e usufruto.

Para o grupo Carcará, o termo feminismo é o mesmo que o entendido pela Marcha, marcado por ser popular: um feminismo anticapitalista. “Entendendo que, nesse sistema, as maiores vítimas são as mulheres”, diz Mahara Jneesh, uma das fundadoras do Coletivo.

Ações 

O Coletivo apresenta-se como um espaço de ação e reflexão sobre o papel social das mulheres, dando visibilidade à vida das mesmas. O grupo declara que, com essa visibilidade, as mulheres já constroem algo diferente do sistema, que as explora através do trabalho doméstico - predominantemente feminino, salários menores no mercado de trabalho, empregos precários, padrão de feminilidade estereotipado e tripla jornada. O Carcará, enquanto coletivo, tem como objetivo principal explicitar tais situações e mostrar que as mulheres têm feito novas escolhas. O papel do grupo é conscientizar as mulheres, buscando que elas tenham voz e que seus direitos sejam legitimados.

Nesse ano, o Coletivo Carcará foi convidado pela reitora da UFSJ, Valéria Kemp, para mapear projetos já existentes na instituição (Iniciação Científica e Extensão) com a temática feminista. A reitora, por sua vez, foi convidada pela vice-prefeita, Cristina Lopes, para ser membro do Conselho Municipal da Mulher. Esse conselho está sendo construído desde 2011, após a participação do Carcará e da vereadora Vera do Polivalente na Conferência da Mulher, na capital mineira. O objetivo do Conselho é debater políticas públicas da cidade para as mulheres, principalmente para aquelas que estão em situação de vulnerabilidade de qualquer tipo, seja financeira, seja de violência. O Conselho ainda precisa ser aprovado, assim como há necessidade de que ele seja formado, como explica Vera Polivalente. “A lei já está pronta e foi entregue para o prefeito Helvécio. Basta agora a Câmara aprovar”. A intenção do projeto é a criação de uma Secretaria de Mulheres e até uma Casa Abrigo, mas, segundo a vereadora Vera, é imprescindível fundar o Conselho para, depois, mapear os anseios e necessidades das mulheres da cidade. 

As meninas do Coletivo se encontram satisfeitas pelo envolvimento e reconhecimento da universidade e da prefeitura em relação a elas, uma vez que esse diálogo entre eles já existe desde o surgimento do grupo. O Coletivo Carcará continuará “avoando que nem avião” por São João del-Rei, cantando seu grito de luta pela igualdade entre homens e mulheres.

VAN/Marlon Bruno de Paula e Mariana Chaves
Foto: Reprodução

Os ingressos da maior micareta indoor do Brasil já estão à venda



Já estão à venda os ingressos para a 18ª edição do Carnalfenas, evento que acontece na cidade de Alfenas, sul de Minas Gerais, e atrai pessoas de todo o Brasil. O Carnalfenas é considerado a maior micareta indoor do Brasil.

As atrações foram escolhidas por pesquisas e enquetes para celebrar a “maior idade” do evento. Os baianos Tomate, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Tuca Fernandes, Chiclete Com Banana, entre outros marcarão presença e prometem agitar a festa. O sertanejo também terá seu espaço com as duplas Munhoz e Mariano e também Fernando e Sorocaba.

“O Carnalfenas é muito animado, tem muita gente bonita”, afirma o engenheiro Pedro César Carneiro, que já esteve presente no evento. Segundo o administrador Rodrigo Ferreira, o Carnalfenas é um carnaval fora de época e é excelente, com uma organização surpreendente.
Fernanda Lemos, professora de Educação Física, já esteve presente em duas edições do evento e pretende ir novamente esse ano. “Um evento perfeito, com possibilidades para todos os tipos de pessoas. Muito bem planejado, com estrutura e atrações de ótima qualidade. Vale muito a pena conferir!”, ressalta Fernanda .

A festa acontece entre os dias 31 de outubro e 3 de novembro. Os passaportes e os ingressos individuais já estão à venda através de comissários, na sede do Carnalfenas, e no site do evento: (http://www.blueticket.com.br/?secao=Eventos&q=carnalfenas). 

VAN/Bruno Marques e Fernanda Rezende
Foto: Reprodução

Instituições comemoram o dia e mês do idoso em São João del-Rei


Em comemoração ao mês do idoso (setembro), e também ao dia do idoso (1º de outubro), além do aniversário de 101 anos do albergue Santo Antônio, aconteceu no último domingo, 08, em São João del - Rei, a primeira corrida rústica promovida pelo próprio albergue. Com o objetivo de arrecadar alimentos, a corrida foi dividida em dois grupos: o das crianças, que largou primeiro e percorreu 1km e, em seguida, o dos adultos, que percorreu 7km. 

Para a estudante de Biologia Renata Vale de Ávila, a ideia da corrida é diferente e incentiva a atividade física para quem ainda é jovem, para tentar envelhecer de forma mais saudável. “Também acaba sendo uma distração para os idosos do albergue, é uma coisa que eles não estão acostumados a ver”, comenta Renata.

Segundo a psicóloga do Albergue Santo Antônio Lilian Camarano, a ideia de promover uma corrida rústica se deu com o intuito de aproximar a comunidade do albergue, uma vez que, segundo ela, é importante que as pessoas conheçam o albergue e mudem seus preconceitos. “A palavra 'asilo' já nem é mais usada, agora já é Instituição de Longa Permanência para Idoso (ILPI)”, completa a psicóloga. 

Lilian ressalta ainda a importância de se comemorar o dia do idoso. “A tendência é ter cada vez mais idosos no Brasil, assim, se torna necessário mostrar para a população o seu valor”, observa a psicóloga.

O presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas (ASAP) Ilson da Silva Neves lembra que todo ano a ASAP comemora o dia do idoso. “Nosso objetivo é sempre cuidar mais dos idosos. Nesse 1º de outubro, como forma de comemoração, a ASAP promoverá um evento no salão da sede chamado “Para recordar: coisas e causos”, além da uma exposição de objetos antigos e uma roda de papo para recordar, começando às 19h”, explica Ilson.

Segundo um estudo feito pelo IPEA em 2011, a população com idade superior a 45 anos representará cerca de 56% da população em idade ativa. A estudante Renata já prevê isso quando menciona alguns avanços em nossa sociedade. “Agora temos mais acesso à informação para poder envelhecer melhor, além de fazer atividades físicas e mentais”, finaliza a estudante.

VAN/Lis Maldos
Foto:Lis Maldos

Escolas municipais e estaduais retornam ao desfile do 7 de Setembro


Nesse sábado, 7 de Setembro, São João del-Rei comemora a Independência do Brasil. O dia da pátria, como o evento também é chamado, é marcado por vários desfiles patrióticos nas cidades brasileiras. 

Assim como no ano passado, o evento será iniciado com o hasteamento das bandeiras e, na sequência, ocorrerá o grande desfile, que será executado em agrupamentos. A abertura será feita pela banda municipal, seguida do agrupamento da polícia e bombeiros. Logo após, segue o agrupamento da APAE, do Albergue Santo Antônio e a novidade do ano: o retorno da participação das escolas municipais e estaduais. O desfile segue com as agremiações esportivas, as entidades maçônicas, os escoteiros e, por fim, o 11º Batalhão de Infantaria de Montanha, considerado pela população o ponto alto do desfile. 

“No Brasil, temos a carência de momentos em que podemos manifestar o nosso civismo, e essas datas como 7 de Setembro e Proclamação da República trazem na nossa memória momentos marcantes e cruciais na história do país. Não podemos deixar que isso se perca, pois são momentos em que o povo tem trazido esses valores que podem realimentar aquela fé, a vontade e o patriotismo dentro de cada um de nós”, afirma Capitão Felito, adjunto da sessão de operações do 11º BIM.

Segundo Pedro Leão, secretário municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, esse ano há o desejo de se trabalhar com a temática do meio ambiente, dos cuidados com a Serra do Lenheiro, além da questão cívica. Participam do evento mais de 20 organizações e entidades, além do exército e prefeitura. Além do desfile militar e civil, haverá a exibição de filmes nacionais no Cine Glória e no Cineclube, que funciona na Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer.

A parte militar da solenidade será coordenada pelo próprio Batalhão e, desde o ano passado, conta com um trabalho conjunto com a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, criado com o intuito de facilitar a participação de todos os interessados no evento.  As instituições ou órgãos interessados em participar da festividade devem manifestar seu desejo. Diante das coordenações feitas nas reuniões, é discutida a participação daqueles que se voluntariaram a fazer parte do desfile. “Todo ano são incluídas novas organizações”, comenta o secretário.

O Albergue Santo Antônio já participa das comemorações e do desfile de 7 de Setembro há vários anos. “Os idosos que andam, desfilam andando, alguns vão em uma jardineira antiga, a kombi do albergue leva alguns e outros vão na própria cadeira de rodas” conta Lilian Camarano, psicóloga do Albergue.

Pedro Leão acrescenta que o dia será de protestos em todo o Brasil. “Nos últimos tempos, temos vivido demonstrações de manifestações, algumas até mais exacerbadas, mas acho que é um momento de reforçar a identidade, de reforçar os símbolos do Brasil e o orgulho que a pessoa tem de ser brasileiro”.

VAN/ Lis Maldos
Foto: Lis Maldos

Iniciativa sustentável une o “centenário” ao “contemporâneo”

Marina Ratton

O Projeto Return 4 life reutiliza shapes quebrados, criando um design diferenciado para mobiliário


Cabides feitos com o shape na exposição em Juiz de Fora
Foto: JP Souza


Quebrar um shape, ou seja, a prancha do skate, é algo muito comum e, geralmente, o skate acaba sendo descartado. O Projeto Return 4 life traz uma ideia inovadora e sustentável, que une shapes quebrados e móveis de demolição.

“O objetivo é a reutilização do produto, de vida útil curta, unindo o antigo e o moderno”, ressalta Francisco Assis (Tito), que faz parte do projeto e é diretor geral da Custom Skate Art, localizada em Santa Cruz de Minas, cidade polo dos móveis de demolição.

A linha Return 4 life possui uma ideologia aliada à responsabilidade ecológica. “Quando o shape se quebra, termina a sua ‘vida útil’. Como móvel, ele ganha vida novamente, se tornando uma peça com grande valor simbólico”, explica Tito, sobre a escolha do nome para o projeto. “O processo se inicia com o desconto na compra de um shape novo, caso o cliente queira entregar o seu quebrado”, declara.

A junção da prancha do skate – de valor simbólico – com os móveis de demolição –  madeiras nobres reaproveitadas de construções centenárias – possibilita uma interação entre a história secular e a contemporânea. O design desenvolvido nas peças, criados pela Custom Skate Art, privilegia a utilidade e a simplicidade.

 “O projeto é incrível. O reaproveitamento dos shapes e o acabamento dos móveis, tudo é muito interessante”, declara Vinicius Cabral, cineasta de São Paulo, que assistiu a uma exibição do Return 4 life, na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro deste ano. “Eu acho que esse tipo de projeto precisa existir, pra demonstrar a possibilidade de sustentabilidade em qualquer atividade”, opina.

O Return 4 life firma parcerias com as marcenarias locais, dependendo do móvel a ser criado. O reaproveitamento do shape colabora para o desenvolvimento ecológico, cultural e sustentável da cidade e região, além de aquecer a economia. A segunda edição da Exposição Return 4 life aconteceu este ano em Juiz de Fora (MG), no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), do dia 21 de fevereiro a 10 de março.

“A 3° edição ainda não tem data e nem local marcados, mas queremos realizá-la”, declara Tito, responsável pelo projeto.

Móveis na exposição em Juiz de Fora
Foto: JP Souza

Reutilização: alternativa sustentável e consciente

O Projeto levanta, porém, questões relativas ao desenvolvimento regional sustentável e problemáticas ambientais. “Em se tratando de reutilização, tudo é muito bem vindo. No entanto, considerando que os shapes têm uma tinta, uma questão a se pensar seria a retirada desta tinta para que não haja contaminação”, afirma Ivis de Lima, membro da comissão organizadora do Encontro de Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, realizado pelo Departamento de Ciências Econômicas (DCECO) da UFSJ.

“No meu entender, os shapes não são poluidores e podem, perfeitamente, serem considerados de demolição e serem reutilizados. Existem várias madeiras que foram pintadas também e estão no processo de reciclagem, normalmente”, opina Ivis.

Bebidas artesanais criam oportunidades na região


Um dos atrativos do Campo das Vertentes são as bebidas artesanais. Parte do cotidiano dos moradores da região, elas também são apreciadas por turistas, que encontram nelas um pouco da famosa culinária mineira.

Joana Ferreira Alves produz 38 sabores de licor. Tudo feito de forma artesanal, utilizando frutas, álcool e garrafas de bebidas vazias. Trabalha sozinha e consegue produzir em média 70 litros de licor por mês.  Aprendeu a arte no orfanato onde morava em São João del-Rei: “Tinha uma irmã lá que fazia, então eu ia visitá-la e ela me ensinava''. Desde então, Joana começou a fazer as bebidas e vender em sua própria casa. Até hoje ela produz tudo sozinha, desde a escolha das frutas ao envase do licor. Mesmo a preparação das garrafas para transporte, é ela quem faz.
As oportunidades da produtora aumentaram há cinco anos, quando passou a vender os licores na Associação de Artesãos Bárbara Bella. A partir de então, ganhou espaço no mercado, vendendo para turistas de todo o país. Agora, manda as bebidas para Alagoas (Maceió), Tocantins e São Paulo. Além disso, o licor virou prato em Tiradentes: “Veio um senhor aqui comprar e comentou comigo que meu licor de jabuticaba fazia parte de um dos pratos do restaurante dele. Até me convidou pra ir provar, mas não fui até hoje”, conta ela rindo. Bares de São João del-Rei também servem drinks feitos com seu licor. Joana é um exemplo de como as bebidas artesanais fazem parte da culinária e da cultura da região.
Segundo o proprietário da adega Salute, Luiz Arthur Fiche de Carvalho, as cachaças feitas nesse pedaço de Minas estão entre as melhores do país: “É uma cachaça produzida em menor quantidade do que umas outras que são fabricadas no Nordeste ou no norte de São Paulo. Mas, são diferenciadas porque é um produto de qualidade superior. São produtos bem melhores”. Ele explica que esse diferencial vem do fato de que todo o processo de produção é concentrado nos alambiques, desde a plantação da cana até a fermentação. “O produtor não pega cana de outros produtores pra fazer a sua cachaça. Ele produz o seu próprio canavial, ele tem controle sobre o seu cultivo e tudo. Então por isso que são cachaças boas. E tem tradição”, afirma.
Tradição essa que já é parte do imaginário brasileiro sobre o mineiro. A cachaça forte, vinda dos antigos alambiques dos tempos coloniais, que muitos associam à imagem do mineiro caipira, representa hoje um dos principais itens da culinária de Minas. Movimenta o turismo da região, assim como a economia. Para o produtor de cerveja artesanal, Vinícius Luiz Ferreira, a degustação dessas bebidas se tornou um atrativo a mais por aqui. "Os turistas que vêm visitar Tiradentes querem conhecer vários aspectos da cultura local e a produção de cervejas artesanais é um deles", declara.
Ao perceber que a produção artesanal de cervejas poderia ser explorada em Tiradentes, Vinícius decidiu investir no mercado. Ele é proprietário da Cervejaria Tiradentes, que se localiza logo na entrada da cidade com mesmo nome. Sua produção pode ser menos caseira do que a de Joana Ferreira, mas também é considerada artesanal, já que ele produz pouca cerveja e realiza praticamente todos os processos dentro da pequena cervejaria. "Chego a produzir 20 mil litros e distribuo apenas em Tiradentes, com a exceção de alguns eventos isolados, mas é raro", conta ele.
Mesmo assim, Vinícius explica que o mercado para esse segmento está se ampliando cada vez mais. "A produção de cervejas artesanais representava 2% do mercado de cerveja no país. Hoje, já chegamos a 10%", diz. Para ampliar ainda mais o consumo de cervejas artesanais na região, o cervejeiro vai participar do primeiro festival TremBier, dedicado às bebidas artesanais e realizado em Tiradentes. O evento começa no dia 12 de outubro, sexta-feira, e vai até o dia 14, domingo, envolvendo degustação de cervejas, palestras, workshops, cursos e shows; tudo relacionado ao setor.
Para Vinícius, ações como a do festival são importantes para chamar ainda mais os turistas. "Hoje ainda não podemos dizer que os turistas vêm para Tiradentes especificamente para degustar cervejas, mas acredito que essa seja nossa meta", destaca ele. Desta forma, quanto mais incentivo o setor receber, mais a cultura local será motivada, criando mais motivos para atrair turistas.

Box Licor:

Entre os 38 sabores de licor produzidos por Joana, destacam-se o de framboesa, jabuticaba, anis e chocolate, que são os mais vendidos. Há também tipos mais exóticos, como sapoti e jenipapo.
O processo de produção já começa na compra das frutas, que são escolhidas a dedo e depois limpas, para um licor de maior qualidade. Após a limpeza, Joana as coloca em infusão no álcool por quinze dias, e passa mais três coando tudo. Para engarrafa-las, utiliza garrafas usadas, que são esterilizadas e enfeitadas com uma corda de sisal. Por fim, coloca um rótulo com o nome e dados.  ''Muitas pessoas de fora chegam aqui em casa pelas informações do rótulo'', conta.

Box cerveja:

A produção da cerveja artesanal da Cervejaria Tiradentes envolve dois processos: o da mostura, que é quente, e o da fermentação, que é fria. O primeiro processo consiste em uma espécie de "chá" com os grãos de malte, colocando água em temperaturas específicas para determinados tipos de produção e coando. A "água" que sobra da filtragem, que na verdade se chama mosto, tem uma grande quantidade de açúcares. Depois disso, o mosto vai para a fase de fervura, onde será adicionado o lúpulo, que é o ingrediente que determina o nível de sabor da cerveja. Da fervura, a cerveja sai esterilizada, com as enzimas inativadas e com os açúcares caramelizados. Para que a cerveja agora fique límpida, o mosto é esfriado rapidamente. Já a fermentação do mosto é realizada pela levedura, que consome o açúcar e produz gás carbônico e álcool. A fermentação pode ser feita em temperatura ambiente, mas o adequado é ter temperatura controlada, o que ajuda a fermentação e não produz sabores indesejados na cerveja. No caso da Cervejaria Tiradentes, existe uma sala com a temperatura controlada. Depois disso, a cerveja fica um tempo na maturação, podendo variar de semanas a meses, para só depois ser envasada. Na Cervejaria Tiradentes, Vinícius vende a cerveja em barris de 40 litros.

Reportagem: Iris Marinelli, Carol Argamim Gouvêa, Adriano Moura e Quéfrem Vieira.
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Insterstícios




Como vários mineiros, de várias gerações, ele não fixou paragem, a não ser em suas memórias. Do interior das montanhas para o resto do mundo, soube articular como ninguém o sotaque da mineiridade com o vocabulário cosmopolita dos sujeitos clivados pela chamada pós-modernidade. Regionalista universal, Otto Lara Resende ocupa a liminaridade, o espaço e o tempo do entre.

“Sou imóvel e semovente”. A frase de Otto Lara Resende, publicada no livro “Três Ottos por Otto Lara Resende” (2002), marca bem o espírito cigano, errante que “os infinitos Ottos”, expressão cunhada pelo jornalista Matinas Suzuki Jr., trilharam ao longo de seus 70 anos de vida.
                Caleidoscópico, multiforme, multifocal, sua alma afligida por uma ambivalência sem fim foi um dos grandes conflitos que perturbou o homem que, apesar de fixado nas Letras Jornalísticas, sonhou em ser aviador, diretor de banco, advogado, professor e tantas outras coisas que cabem numa mente demasiado inquieta.   
                Junto do amigo Paulo Mendes Campos, mais tarde uma espécie de alter Otto, já que assinaram artigos juntos com os pseudônimos de Otto Mendes e Paulo Lara, as mirabolantes ideias dos colegas de infância beiravam o absurdo: “(...) Por que  não aviador? Lá fomos nós estudar inglês na avenida Brasil, ali pertinho da Praça da Liberdade, para o concurso que nos levaria a ser pilotos, quem sabe pilotos de guerra”, revelou Otto em crônica publicada dia 28 de fevereiro de 1992, no jornal Folha de S. Paulo.      
Eleito para a cadeira de número 39 da ABL em 1979, 
Otto não se sentia nem um pouco à vontade 
com o fardão da Academia
Mas, graças ao destino, ou à providência, como preferiria Otto, sua missão foi mesmo despencar como kamikaze nos jornais. Ele costumava dizer que entrou para o jornalismo como cachorro entra na igreja. A porta estava aberta. Não por acaso seu pai, católico fervoroso, era um dos diretores de O Diário, jornal da capital mineira que Otto estreou com o artigo intitulado “Panelinhas Literárias”, no qual fez uma defesa acalorada do escritor catolicista Tristão de Athayde, nome literário adotado por Alceu Amoroso Lima. Mesmo ocupando cargos importantes nos maiores jornais do país, Otto nunca se conformou com o fato de não ter exercido o magistério de forma plena. As aulas de Língua Portuguesa e Francesa que chegou a lecionar foram como uma nuvem passageira. Não chegou a fertilizar o solo de experiências acumuladas durante sua existência: “A culpa de tudo foi sempre minha. Professor: fui no ginásio, gostei muito. Sempre desconfiei que eu dava bom professor, devia continuar. Vim pro Rio com essa intenção. Arranjei uma carta do doutor Alceu tão elogiosa, para o São Bento, que fui adiando, não deu para ir lá, era longe, eu trabalhava no Globo, no Diário de Notícias, em tanto lugar, em tanto jornal, acabei deixando o magistério, retomei episodicamente, sempre gostei”, desabafa Otto em entrevista concedia a Paulo Mendes Campos, em abril de 1975.

O pobre menino do Matola

                Otto Lara Resende nasceu dia 1º de maio de 1922 na Tradicional Família Mineira. Como costumava dizer, “era um pobre menino do Matola”, bairro antigo de São João del-Rei. Dos 20 filhos que seus  pais tiveram, 14 vingaram, como  se diz ainda em Minas Gerais. 
“Sempre desconfiei que  eu dava bom professor. 
Devia continuar”
                E, ao que tudo indica, o gosto não realizado pelo magistério vem dessa época. Seu pai, antes de ser diretor de jornal em Belo Horizonte, era dono de um tradicional colégio são-joanense que, se não era igual, inspirava-se no educandário do Caraça, região central de Minas, que causava medo nas crianças pelas histórias de punição a que eram submetidos os alunos.
              A influência do pai e o encontro com o professor Benone Guimarães, ainda na escola primária, foi decisivo na escolha de uma vida inteira dedicada ao beletrismo. Por esta época, Otto conheceu os clássicos e rapidamente se apaixonou por Machado de Assis, Eça de Queiroz e Agripino Grieco. Além das montanhas e dos dobres de sinos das igrejas medievais que pesavam em sua alma infantil, a leitura prematura dos cânones literários repercutiu diretamente em sua formação. “A descoberta de Machado de Assis, de sua visão cética, amarga, de sua ironia, de seu sense of humour, desvendou um mundo para mim. Aos catorze, quinze anos, eu talvez fosse mais amargo e mais pessimista do que o Machado (…)”, confessou Otto.
                Este espírito carregado pelos fantasmas de sua infância é uma marca que biógrafos do jornalista passam recibo. Segundo Benício Medeiros, em “Poeira da Glória”, “O universo temático de Otto é o interior de Minas da sua infância, povoado de tédio, de culpa e de cânticos à sombra e à luz de centenárias igrejas. Retratou com graça, humanidade e economia de recursos o pedaço de um Brasil mítico onde os personagens transitam entre a mentalidade de chã e a transcendência dourada do barroco”.
                Mas ao lado deste Otto melancólico, conviveu o Otto das tiradas inesperadas, o causeur mais concorrido entre os amigos. Não por acaso Nelson Rodrigues, que escandalizou o jornalista com o título da peça “Bonitinha, mas ordinária. Ou Otto Lara Resende”, é o autor de um dos aforismos que melhor definem o escritor de “O Braço Direito”. “A grande obra de Otto Lara Resende é a conversa. Deviam pôr um taquígrafo atrás dele e vender suas anotações em uma loja de frases”.

Sense of humour
               
O lado “endiabrado” de Otto ficou evidente com sua mudança para Belo Horizonte, em 1938, quando tinha 16 anos. Ao lado dos amigos Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, que o próprio Otto chamava de “Os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, o que não faltavam eram peraltices na ainda provinciana capital mineira. Em uma de suas célebres frases, autodefiniu-se como “uma alma seriamente amolecada”. E foi com essas molecagens que agitou a juventude belo-horizontina dos anos 1940. 
                “Os mais afoitos, além das farras ingênuas do Cabaré da Olympia, aventuravam-se pela noite boêmia em rapaziadas que o anedotário da época guardou até os nossos dias (e muitas, depois, seriam macaqueadas pela minha geração, na década de 40): trocar o número das casas, arrancar as placas de dentistas, médicos e advogados afixadas, como era hábito, no portão ou na porta da rua, subir pelo arco do viaduto pela estrada de ferro, em busca de uma vertigem que um descuido poderia transformar em acidente fatal, quase suicídio, atear fogo na casa das namora- das rebeldes para depois, bombeiros voluntários, ajudar a apagá-lo, tomar carraspanas homéricas que o silêncio frio das madrugadas engolia e sepultava na indiferença, com um ou outro incidente policial… Eram, no fundo, uns bons rapazes, filhos de famílias, na tentativa mais ou menos vã de dar vazão a uma juventude inconformada com o estilo compassado e sisudo da vida mineira, com o famoso ‘senso grave da ordem’ de nossa imperturbável província”, queixou-se Otto.
E o tamanho diminuto das Alterosas não comportava o afã revolucionário daqueles jovens que sonhavam com a liberdade. Pouco a pouco, fizeram as malas e se transferiram para o Rio de Janeiro em 1945, então capital do Brasil.


O mineiro flâneur

                Otto Lara Resende aterrissou em praias cariocas em 1945. Quando chegou, foi recebido pelos amigos Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, fixados por lá. Já no Rio, mal teve tempo para respirar a maresia que inebriava seu horizonte aberto pelo mar sem fim. Enfiou-se em redações de jornais como o Diário de Notícias, O Globo, Diário Carioca, Correio da Manhã, Última Hora, Revista Manchete e TV Globo.
   Sua adaptação rápida levou Benício Medeiros a afirmar que Otto Lara Resende se transformou no “mais carioca de todos os mineiros”. A verdade contida na assertiva do biógrafo de Otto repousa naquilo que o filósofo argelino radicado na França, Jacques Derrida, chama de “desconstrução”. Para ele, os sujeitos não vivem o presente por completo, já que necessitam deslocar-se entre tempos e espaços que fogem à presença para constituírem-se em um ser significativo. A chamada différance, corruptela ortográfica do francês différence, é para Derrida aquilo que não encontra uma resposta baseada em termos dicotômicos, como belo/feio, mas por meio da possibilidade de se alinhavar o que está no meio, o intermediário entre a pureza e a maldade, o espaço dos interstícios a que os sujeitos são alvejados o tempo todo.
“O pequeno mundo de Otto Lara Resende”, quadro que
o jornalista apresentou  no “Jornal de Verdade”, da Rede Globo, 
ou “Vênus Platinada”, como definiu Otto
                Otto pode ser considerado o típico representante da différance derridiana. Isso porque, enquanto sujeito carioca que escreve, praticamente psicografa o espírito mineiro que insiste em possuir suas memórias. No trecho da crônica “Chegamos juntos ao mundo”, publicada na Folha de S. Paulo dia 3 de julho de 1991, Otto se desconstrói enquanto carioca para se tornar um mineiro assombrado pelas lembranças escritas por Paulo Mendes Campos: “Ainda bem que nas crônicas e nos poemas do Paulo encontro a nossa Belo Horizonte. E o adro da igreja de São Francisco de Assis. Em São João del Rei. Nosso primeiro universo. Nossa pátria pequena, Minas”.  
                As Alterosas já não estão mais materializadas, mas são vestígios da memória que Otto precisa buscar fora de si para significar-se. Misturam-se as vozes do mineiro, do carioca e do cidadão do mundo construindo um ser clivado, híbrido.

Eterno Exílio

Otto é o terceiro da esq. p/ dir.
Este ser que se despedaça para recolher novamente os cacos que lhe constituem é justamente aquele que habita a fronteira. Um eterno exilado que flutua por espaços descontínuos e por tempos de espera, já que para ele o futuro deve se reencontrar com o passado e o presente é apenas a travessia.
                
Otto e a futura esposa,
Helena Pinheiro
Desde que desceu a montanha, Otto estava certo da escolha que fez: “Quando cheguei ao Rio para viver, foi uma opção definitiva”, garantiu na crônica “Sombra e água fresca”, da Folha de S. Paulo, dia 22 de dezembro de 1991. Mas escolhas permanentes nunca foram duráveis na vida de Otto. Quando se mudou para Bruxelas, em 1957, também seria para o resto da vida. “Por mim teria ficado na Europa, já tinha arranjado um contrato na Unesco, estaria lá até hoje, se não fosse Helena, depois que eu assinei, ela me olhou, percebeu que eu fazia uma opção para sempre, começou a chorar e me pediu pra voltar, passei pelo vexame de voltar atrás, vim embora”, confessou Otto. O mesmo aconteceu com Lisboa. A mudança vitalícia em 1967 durou apenas dois anos.
Da esq. p/ dir: Fernando Sabino, Hélio Pellegrino,
Otto e Paulo Mendes Campos:
“Os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse
                Apesar de ter respondido mineiramente a um repórter que “não merecia volta a Minas”, Otto nunca deixou de ser mineiro. Sua errância não foi suficiente para apagar de sua memória sua terra natal. Come ele próprio afirmou, “Quem quiser descrever o universo tem que falar de sua própria aldeia. E minha alma é formada por sinos, igrejas barrocas e as imagens de infância em São João del-Rei”. Seu eterno exílio cumpre-se na sepultura. Otto Lara Resende foi enterrado dia 28 de dezembro de 1992 no Rio de Janeiro.





Zuenir Ventura no 8º Felit


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